segunda-feira, 1 de maio de 2017

Maio e as Maias, na Biblioteca Municipal de Beja




   Hermes e Maia, detalhe de uma ânfora ática, 500 a.C., Coleções Estatais de Antiguidades (Inv. 2304)
                                                              Fotografia a partir de:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Maia_(mitologia)


«Mas, antes de tudo, venera os deuses e oferece à magna Ceres os sacrifícios anuais devidos, celebrando-os nos prados ridentes, quando o inverno chegou ao ser termo e a primavera serena já se anuncia. Nessa ocasião estão nédios os cordeiros e os vinhos têm o melhor sabor; o sono é aprazível, e são densas as sombras nos montes. Adore Ceres, por tua intenção, toda a mocidade dos campos; diluam-se, em honra de Ceres, favos de mel em leite e doce vinho; que a vítima propiciadora dê três voltas aos trigos novos, e todo o alegre cortejo a acompanhe, invocando com clamores, para a tua casa, a protecção de Ceres; e que ninguém meta foice nos trigos maduros antes de, com a fonte cingida por uma grinalda de folhas de carvalho, ter honrado a deusa com singelas danças e com cânticos»
As Geórgicas de Vergílio, Ed. Sá da Costa, 1948. (vv 335-355)



Maias: a mais antiga celebração religiosa
Filomena Barata - Museu Nacional de Arqueologia
As Maias constituem um ciclo de festivais que, em Roma, se relacionavam com o despertar da natureza, lembrando antiquíssimos cultos agrários.
Para os gregos, Maia era a mais velha das Plêiades, uma das sete filhas de Atlas e que, unida a Zeus, foi mãe de Hermes, o mensageiro dos deuses, conhecido por Mercúrio entre os romanos, ancestralmente considerado uma divindade agrária e da pastorícia.
Já na mitologia romana, Maia surge-nos como uma antiga divindade itálica, filha de Fauno e esposa de Vulcano, o deus romano do fogo (Hefesto na mitologia grega). Era designada de Maia Maiesta e também de Fauna ou Bona Dea (deusa das Deusas).
Deusa da primavera, Maia deu nome ao mês de maio, que lhe era consagrado. No primeiro dia de maio, o flâmine de Vulcano sacrificava-lhe uma porca grávida.
Era essencialmente venerada por mulheres, sendo os homens excluídos do perímetro sagrado dos seus templos.
Embora não estando relacionadas originalmente, as duas divindades de origem grega e romana acabaram por ser identificadas uma com a outra.
Muito provavelmente associando-se remotamente a esses rituais de sagração da primavera, provém o hábito de pendurar giestas às portas e janelas, nos portões, cancelas, carros de lavoura e até nos próprios animais, em muitas localidades portuguesas, afastando o “burro”, igualmente chamado em algumas zonas o “carrapato”, ou seja, o mau agouro que possa ser nefasto para as colheitas, no início do mês de maio.
E as Maias, meninas vestidas de branco e coroadas de flores, ou as “marafonas”, as bonecas de pano ou de palha vão sentar-se à porta de casa, na esquina da rua ou na praceta, pedindo “um tostãozinho para a Maia”.
Regiões há onde se enfeitam ruas e edifícios com coroas de flores de giestas, chamadas maia ou maio.
Ainda hoje as Mais se podem considerar um dos rituais mais expressivos do ponto de vista da história religiosa antiga, que permaneceu, segundo alguns estudiosos, sem grandes alterações desde o século V, e que se exprime, com variantes, em vários pontos do País, celebrando, tal como acontecia na Roma Antiga, o despertar da natureza, a fertilidade vegetativa.
José Leite de Vasconcelos, nos seus Opúsculos, Volume V – Etnologia, publicado em 1938, refere que a mais “antiga menção desta festa popular, festa evidentemente naturalística, posto mais ou menos desviada da sua significação primitiva, já pelo próprio Paganismo, já pelo Cristianismo, creio que se acha nestas linhas da Postura da câmara de Lisboa de 1385: ‘Outro sim estabelecemos que daqui em diante em esta Cidade e em seu termo não se cantem as Janeiras nem Maias, nem outro nenhum mês do ano’”.
Aceita-se ainda que a tradição das Maias possa remontar ao episódio da fuga de Jesus para o Egito, dada a perseguição de Herodes que ordenara a morte do Menino. Quando se identificou a porta da casa onde pernoitou, foi colocado um ramo de giesta na porta para que os soldados de Herodes a pudessem reconhecer e o fossem buscar. Milagrosamente, quando os soldados se dirigiam à cidade, foram confrontados com as casas todas enfeitadas com ramos de giesta florida, não podendo assim cumprir a sua missão. Mas há quem recorde também o caminho da sagrada família para o Egito, quando Maria, para se orientar, terá colocado giestas no seu caminho.
Contudo, dada a altura do ano, correspondendo à época de florestação, da plenitude da primavera, aceitamos que os seus antecedentes possam filiar-se em cultos bem mais antigos.
Derivando da palavra latina flos (flores), Flora era, por sua vez, uma ninfa romana das flores, também intimamente ligada à primavera. Porque um novo ciclo começa com a entrada dessa estação, Flora surge-nos assim como deusa da fertilidade. Durante os festejos que lhe eram dedicados em Roma, atiravam-se sementes sobre a multidão para atrair a abundância, situação em que podemos encontrar algum paralelismo no hábito de deitar arroz aos recém-casados.
Eram também sacrificadas ovelhas e ofertado mel e sementes de flores. O mel era exatamente considerado um dos presentes que Flora tinha dado aos seres humanos, simbolizando, neste caso, a abelha a força feminina da natureza. Flora foi inúmeras vezes associada a Deméter, a Ceres dos romanos de que falaremos, e o poeta Ovídio (43 a.C. — 17 ou 18 d.C.) chega mesmo a relacioná-la com a mitologia grega, identificando-a com a ninfa grega Cloris, embora a origem da divindade seja também itálica.
Segundo a versão do Mito de Ovídio, um certo dia de primavera, Zéfiro, o vento oeste, avistou a ninfa Cloris, apaixonou-se por ela e transformou-a em Flora. Como prova de seu amor, Zéfiro nomeou a sua amada como rainha das flores, das árvores frutíferas e concedeu-lhe o poder de germinar as sementes das flores de cultivo e ornamentais, entre elas o cravo.
Já em abril, mês de Vénus e das rosas que eram seu atributo, se elogiava na antiguidade o renascer da vida.
A rosa, considerada “a rainha das flores” pela poetisa Safo no século VI a.C., teria sido criada, segundo a mitologia grega, por Cloris, essa deusa das flores a partir do corpo inanimado de uma ninfa.
Essa bela flor foi consagrada a Afrodite, a Vénus da época romana, que, segundo as lendas, nasceu das espumas do mar que se transformaram numa rosa branca, representando a pureza e a inocência.
Dioniso ou Baco entre os latinos, segundo a tradição mais difundida do mito, ofereceu-lhe o seu perfume, e as Três Graças deram-lhe o encanto e o brilho com que ela pasmava os que a contemplavam.
Também Cupido, o deus do Amor, filho de Marte, deus da guerra, e de Vénus, usava uma coroa de rosas, assim como Príapo, deus dos jardins e da fecundidade.
Também a mitologia nos diz que quando a apaixonada Afrodite viu o seu amado Adónis ferido, pairando sobre ele a morte, a deusa foi socorrê-lo, tendo-se picado num espinho e o seu sangue coloriu de vermelho as rosas que lhe eram consagradas. Assim, na antiguidade, as rosas eram também usadas sobre os túmulos como símbolo de luto.
Em Roma existia um festival em honra de Flora e de Vénus chamado “Rosália”, e todos os anos, no mês de maio, as sepulturas eram adornadas com essas flores, provavelmente em alusão à morte de Adónis.
As papoilas bailantes que ainda hoje enchem os nossos campos são, a par das espigas, atributos de Deméter-Ceres, a deusa da fertilidade e do trigo, considerado símbolo da civilização, enquanto capacidade dos humanos moldarem a natureza.
Como era a deusa da agricultura, fez muitas viagens em companhia de Dioniso, deus da vinha e do vinho, para ensinar os homens a cultivarem a terra.
Teve Deméter, a Ceres romana, uma filha do seu irmão Zeus chamada Perséfone que vivia meio ano nas profundezas da Terra e outra metade vinha ajudar a sua mãe. Com o seu regresso inaugurava-se a primavera.
Também a 23 de abril se comemoravam as vinalia, festa dedicada à proteção das vinhas sob a proteção de Vénus que concedeu, segundo a mitologia, aos humanos o vinho corrente vinum spurcum. A Júpiter, como deus que regulava o clima, eram-lhe oferecidas libações com vinho benzido pelo sumo sacerdote.
Por sua vez, no templo de Venus Ericina, jovens e prostitutas reuniam-se procurando relacionamentos e ofereciam à deusa mirto, menta e juncos entre ramos de rosas, pedindo beleza.
Vivamos assim as Maias, abençoando a Terra Mãe, cultuada desde as mais remotas alturas.

Filomena Barata

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Boa Páscoa, Revista Incomunidade

Filomena Barata

Boa Páscoa 2017

http://www.incomunidade.com/v55/art_bl.php?art=95

ANO 4EDIÇÃO 55 - ABRIL 2017



Bom renascer, bom borrego sagrado servido à mesa. Ou imaginado, para quem o não puder provar.

Restos tragados em dia de Pascoela, em barragens ou rios para bem sagrar.

Bons ovos da Páscoa, esses símbolos genésicos, para tudo conter.

Friso-cornija: Museu Monográfico de Conimbriga



Aproveito este espaço que me é dado, para, em primeiro lugar, desejar a todos vós uma BOA PÁSCOA, neste período em que a vida renasce.
Agora que no Alentejo e o resto do país se prepara a Pascoela, esse dia em que junto aos ribeiros ou barragens se reúnem ainda as famílias para comer os restos do borrego pascal, celebrando as fontes de vida, como a água e o sacrifício depurador do animal, é época para tentarmos também dentro de nós fazer renascer um sentido de vida melhor, numa época em que diariamente a crise nos testa.
 Esse mesmo cordeiro pascal, imolado na Bíblia, e que segundo a Mitologia Clássica era reportado a Ganimedes, que era guardador de rebanhos nas montanhas de Tróia quando o pai dos deuses Zeus, em pessoa ou em forma de águia, o raptou ou levou para o Olimpo, onde passou a desempenhar o papel de escanção do néctar dos deuses, o vinho. Também o vinho, a par do borrego e do pão faz parte da ceia pascal, pois  dessa refeição sagrada fazem parte o borrego, significando aqui o próprio Jesus, o vinho e o pão, o seu sangue e o seu corpo.O borrego que o Cristianismo consagrou como alimento divino e que, para além de fornecer a lã que pasmará os romanos em Salacia (Alcácer do Sal), quase substituiu o porco alimentado a bolota, no período islâmico, é ainda um dos alimentos mais presentes na dieta alimentar do Alentejo.

Poucos dias passaram do Equinócio, essa palavra latina que aglutina dois termos Aequus, que significa "igual" e "nox", noite.
Isto é, inaugura-se a Primavera, altura que a noite e o dia passam a ter sensivelmente a mesma duração.


O Equinócio ou a chegada da Primavera é um momento celebrado em todo o mundo, desde tempos imemoriais, exaltando-se a natureza e a abundância, sendo-lhe dedicados festivais ao longo dos séculos.

Cerealia era exactamente uma festividade em honra de Ceres, deusa das colheitas, que os romanos enquadravam no período da regeneração do equinócio da Primavera, simbolizando o renascer da Natureza e a chegada do período de fertilidade. A sua importância ao longo do tempo tornou-se bastante visível, acabando por esta festividade ser adoptada pelos cristãos, coincidindo com o período que vivemos, ou seja,  da Páscoa.

Ao que diz a Mitologia, Prosérpina, filha de Ceres e de Júpiter, era uma das mais belas deusas de Roma e, enquanto Prosérpina apanhava flores no campo, surgiu Plutão que a rapta e a leva para as profundezas da Terra, tornando-a sua esposa.

Ceres, sua mãe, procura-a desesperadamente, mas,  no entanto, porque ela havia comido sementes de romã, acabou por ficar definitivamente cativa, e foi mantida debaixo
de terra durante seis meses, até à Primavera, época de fertilidade e colheita, quando ela renasce e regressa para junto da mãe até ao fim
do verão.


Durante a Cerealia, eram famosos os jogos de Ceres (ludi cereales), que consistiam na procura de Prosérpina e eram representados por mulheres de branco que corriam com tochas acesas. Os jogos apresentavam atividades variadas nas quais os cidadãos poderiam participar.

Relacionados com a Páscoa cristã estão vários símbolos, desde o cordeiro pascal, a outros elementos de filiação distante, como são o coelho e os ovos.

O coelho é um símbolo da fertilidade pela sua enorme capacidade de reprodução. Tal como a ideia da Páscoa é vida, ressurreição, é renascimento.

Já em período romano são conhecidas inúmeras referências a essa sua capacidade, ao ponto de ser considerada uma praga, como nos refere Plínio, « ... Ao género das lebres pertencem também os animais a que na Hispânia se chamam «cunuculi», de fecundidade inesgotável (...) Plínio, N.H., VIII, 217 ou mesmo Estrabão que se refere às  lebrew como «animais daninhos» : «Estes animais, como se alimentam de raízes, destroem plantas e sementes». (...) uma invasão (de lebres) deste género ultrapassa as suas proporções habituais e propaga-se como uma peste, ao modo das pragas de serpentes ou de ratos campestres» Estr. III, 2, 69.

Os ovos, (ou óvulos) representam o nascimento, a fecundidade ou a força genésica primordial, portanto, a própria ideia da vida, da eternidade ou da ressurreição, acabam por pertencer a um dos mais comuns motivos decorativos quer de bens de utilidade doméstica quer de elementos arquitectónicos: frisos; capitéis.

Ao que se sabe já era comum presentear as pessoas com ovos ornamentados na Antiguidade.

Os egípcios e persas costumavam tingir ovos com as cores primaveris e os davam a seus amigos. Os persas acreditavam que a Terra saíra de um ovo gigante, tal como na Mitologia Clássica onde se considera que o Universo surgiu a partir de um ovo Cósmico semelhante ao de um pássaro.

Trata-se do ovo cósmico que, identificando-se com o Andrógino, representa a plenitude da unidade fundamental e genésica, onde se confundem os opostos.

Por isso, para agraciar os Lares, era comum em Roma enterrarem-se ovos ou taças com ossos de aves, cuja significação, na essência, era a mesma.
Nos seus elementos decorativos, sagravam os Latinos esse ovo matricial.

Ao que se sabe, os primitivos cristãos da Mesopotâmia foram os primeiros a usar ovos coloridos na Páscoa, representando a alegria da ressurreição.

Na Grã-Bretanha, costumava-se escrever mensagens e datas nos ovos dados aos amigos e em muitos países europeus, os ovos são oferecidos às crianças como presentes de Páscoa. Também eram decorados ovos ocos na Arménia com retratos de Cristo, da Virgem Maria e de outras imagens religiosas.

Mas muitos outros povos, como os chineses, os hindus, finlandeses, japoneses, índios americanos, e mesmo povos africanos têm a sua cosmogonia derivada do ovo, a que se associa a ideia de fertilidade, nascimento e ressurreição, como se pode confirmar nos tradicionais ovos de Páscoa. Círculo que contém o princípio e o fim.

Ou seja, homenageiam assim a génese do Mundo fecundado pelo Sol, ou criação das águas primordiais que, ao separar-se, origina o Céu e a Terra. É através da partição, da divisão do ovo, desse círculo inicial, e do Andrógino primordial, que cosmicamente se cria, ou se diferencia a noite e o dia, o macho e a fêmea.

Também entre os Gregos, da Noite, esfera imensa e oca, separam-se, como o desabrochar de um ovo, duas metades: O Céu e a Terra (Urano e Geia), de cuja união nascem os Titãs.

Já Platão na sua obra «Banquete» relembra o mito do Andrógino, afirmando que o Homem original tinha a forma esférica, integrando os dois corpos e os dois sexos. São estas as suas palavras: «... naquele tempo, o andrógino era um género distinto que, tanto pela forma como pelo nome, continha os outros dois, ao mesmo tempo macho e fêmea».
A seu modo, a própria Bíblia, segundo o Génesis, ao assumir que Eva foi tirada de uma costela de Adão aceita que, na origem, todo o humano era indiferenciado e que o nascimento de Eva mais não teria sido do que a cisão do Andrógino primordial em dois seres: macho e fêmea. O retorno ao estado primordial, à unicidade primeira, em que se inclui a ideia de fusão do divino e humano, é para a maioria das religiões o grande objectivo da vida.

O mito do Andrógino, ou signo de totalidade inicial, é muitas vezes concebido como ovo cósmico, representa a plenitude da unidade fundamental e primordial onde se confundem os opostos, círculo que contém o princípio e o fim.
E é por esse motivo que há o hábito de oferecer ovos na Páscoa ou de os colocar sobre os bolos confeccionados nesta altura, pois a Primavera e o Equinócio são esse ciclo do RENASCER.

Fragmento escultórico em estuque com friso de óvulos. Conimbriga


Na fotografia: «bordo de taça de Terra Sigillata Sudgálica, tipo Dragendorff forma 37.

Apresenta uma linha de óvulos com lingueta. Em baixo segue-se uma linha ondulada, sob a qual se apresenta uma decoração difícil de determinar formada por motivos de árvores que alternam com figuras de animais: cabeça e membros superiores de uma lebre que salta para a direita e parte da juba, dorso e cauda de um leão que segue na mesma direcção. No topo das árvores encontram-se pequenas aves. (descrição a partir de C. Veigas, 2006)».

Proveniência:Torre d'Ares
Fotografia e legenda (entre aspas) a partir de:
http://www.matriznet.dgpc.pt/…/Obje…/ObjectosConsultar.aspx…

Mosaico emeritense com representação de coelho.Fotografia Morenzo Plana Torres




segunda-feira, 3 de abril de 2017

Visita ao Museo Arqueológico Provincial de Badajoz e Museu de Évora

31 de Março a 2 de Abril.
Participaram:
Secundária Leal da Câmara, Rio de Mouro: Liceu Camões, Lisboa; St. Peter´s School, Palmela.
Lisboa - Palmela - Mérida - Badajoz - Évora - Palmela - Lisboa.




SIC ITUR IN EMERITAM

31 de Março a 2 de Abril.
Participaram:
Secundária Leal da Câmara, Rio de Mouro: Liceu Camões, Lisboa; St. Peter´s School, Palmela.
Lisboa - Palmela - Mérida - Badajoz - Évora - Palmela - Lisboa.


Em Mérida: Museo Nacional de Arte Romano
Casa de Mitreo
Anfiteatro e Teatro romanos
Alcazaba de Mérida
Circo de Mérida
Ponte romana


terça-feira, 21 de março de 2017

A Poesia do Transcendente, no Museu Nacional de Arqueologia

Hoje, celebra-se o  Dia Mundial da Poesia.

No próximo dia 25, pelas 15h 30m, no Museu Nacional de Arqueologia, dar-se-á voz à Poesia clássica, através de um percurso em torno  de algumas das peças da mostra «Religiões da Lusitânia» e «Lusitânia dos Flávios»,  com a colaboração da Associação Clenardus.



Prece às Musas

Belas filhas de Mnemósine e de Zeus Olímpico,
            Musas Piérides, escutai a minha prece.
Concedei-me da parte dos deuses bem-aventurados a felicidade
            e, perante os homens, ter sempre boa fama,
ser doce aos amigos, amargo aos inimigos,
            respeitado por aqueles, temível para estes.
(..........................................................................................................)

                                                                      Sólon (séc. VII-VI a. C.)



segunda-feira, 20 de março de 2017

A LUZ, lembrando hoje o Equiócio da Primavera.

Filomena Barata

A LUZ

http://www.incomunidade.com/v32/art_bl.php?art=232

O despojamento, um exercício fundamental e desejável, não é sinónimo de ausência de complexidade.Porque até a luz contém todas as cores!
Talvez, de há uns tempos para cá, seja dos temas que tratarei com mais dificuldade. Talvez por um motivo apenas, porque é um dos que mais me fascinam.

E porque a Luz, no Presente geográfico de onde escrevo neste momento, Angola, é, como em todas as sociedades um elemento fundamental.

Mas a Luz aqui, que se transforma ao nascer e pôr do Sol num mundo com todas as tonalidades de uma grandeza que náo se consegue descrever, num elogio das cores que a compõem, é, durante o dia, quase sempre filtrada como que por uma névoa que a evaporação causada pelo calor provoca.

É uma Luz coada que poucas vezes permite ver o Céu do azul que conhecemos no Ocidente Peninsular.
 E inicio este texto quando o Céu resolveu estalar, trovejando, sem, contudo me ter dado conta de os Deuses se terem zangado, nem tão pouco os Humanos estarem de costas viradas para eles.

Zeus, certamente, resolveu accionar os poderes conferidos ao domínio do Olimpo, e acionar os seus atributos de rapidez, enviando raios até este ponto do Atlântico Sul.

Para os Egípcios, o deus egípcio da tempestade, dos trovões e do caos era Set (ou Seth). Sabemos através de uma lenda, que esse ser rude, bestial, assassinou o seu irmão Osíris.

Ísis, esposa de Osíris, desesperada com a sua morte procura e encontra o corpo do marido, conseguindo engravidar mesmo com ele já morto. Dessa união, nasce Hórus que Ísis esconde de forma a que Seth não saiba de sua existência, nem atente contra sua vida. Conta com a protecçáo de outras divindades, designadamente Rá, seguido de Toth, deus da sabedoria.

Numa outra lenda, ao invés, Set usa o seu poder para proteger Ra, o deus do Sol.

Na mitologia grega antiga, Zeus atirava flechas do céu quando fica enfurecido, a mesma arma que manejara com destreza para derrotar os inimigos, os Titãs, que o permitiu tornar-se o deus dos deuses. Era ele, Zeus, que tinha poder sobre os fenómenos atmosféricos, lançando a chuva com a sua mão direita e usando a sua força de forma destruidora, mas também para que fosse benfazeja com as plantações. Por isso, Zeus é representado na própria estatuária grega com os seus atributos: o relâmpago ou raio na mão direita, sendo também seus atributos a águia, o touro e o carvalho, que simbolizam reciprocamente a rapidez, a força, a energia e o poder do comando.

As flechas de Zeus brilhando por entre as nuvens fazem um barulho ensurdecedor, como descreviam os Antigos, povoando as suas mentes de medo, mas também de fascínio por táo grande poder.
 Do mesmo modo, os Gregos criam que os Cíclopes, os gigantes de um só olho (chamados Arges, Brontes e Estéropes,32), forjavam raios para Zeus, pai dos deuses do Olimpo, para lançá-los sobre os mortais.

Tal como Zeus e seu equivalente romano, Júpiter, o deus indiano das tempestades, Indra, é também o soberano dos deuses. Essa divindade vermelha e dourada usa também a sua flecha tanto para liquidar os inimigos como para fazer reviver aliados desfalecidos. Destrói demónios e serpentes, mas também é criador de vida, trazendo luz e água para o mundo.

O simbolismo associado à LUZ, à saída das trevas, encontra-se presente em quase todas as culturas e civilizações e religiões, desde épocas remotas.

Já na célebre «Alegoria da Caverna», parte constituinte do livro VI de «A República» de Platão, a Luz associa-se à ideia Libertação do Homem acorrentado que vive num mundo de Sombras. É através do conhecimento e da Razão, ou, numa palavra, da Luz, que o Homem se aproxima da realidade que, num primeiro momento, o ofusca.

Mas é quando toma contacto com o Sol, como fonte de Luz, da qual provém toda a Vida, os seus ciclos, o Tempo, e a energia que se apercebe como vivera destituído do conhecimento real.

Em muitas religiões ou mesmo ritos iniciáticos, a LUZ associa-se a esse mesmo conhecimento, mas ainda a uma força renovadora e plena de energia. Afinal é o dia que se sucede à noite como nos dá conta Mozart na sua «Flauta Mágica».

A Luz está, portanto, associada ao conhecimento, assumindo em muitas religiões um carácter de força celeste, a Luz divina ou Luz espiritual de que o culto do Espírito Santo é, claramente, uma manifestação. O despertar da Luz interior é, por sua vez, uma constante em rituais iniciáticos, tendo aqui como clara conotação o Conhecimento e o Crescimento Interior.

Lembro ainda Lúcifer, o Deus-astro dos Romanos, sucedâneo do Fósforo dos Gregos.

Lúcifer é a divindade que anuncia a Aurora de quem é filho, tendo outras designações como a Estrela da Manhã ou Estrela d’Alva; Héspero, Heósforo.

É este deus que em hebraico significa brilho e que os textos bíblicos de Isaías referem como representando o Mal, numa alegoria ao rei da Babiónia: "Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações! Você que dizia no seu coração: ‘Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo’" (Isaías 14:12-14).

Lúcifer assume ainda nos Textos Sagrados, em Ezequiel, desta feita numa alusão ao rei de Tiro, os males a que o Homem e os tiranos se converteram: «Por meio do seu amplo comércio, você encheu-se de violência e pecou. Por isso eu o lancei em desgraça para longe do monte de Deus, e eu o expulsei, ó querubim guardião, do meio das pedras fulgurantes. Seu coração tornou-se orgulhoso por causa da sua beleza, e você corrompeu a sua sabedoria por causa do seu esplendor. Por isso eu o atirei à terra; fiz de você um espetáculo para os reis. Por meio dos seus muitos pecados e do seu comércio desonesto você profanou os seus santuários. Por isso fiz sair de você um fogo, que o consumiu, e eu reduzi você a cinzas no chão, à vista de todos os que estavam observando. Todas as nações que o conheciam ficaram chocadas ao vê-la; chegou o seu terrível fim, você não mais existirá" (Ezequiel 28:11-19)».
É assim que a Luz de que Lúcifer era o patrono se transforma numa energia maléfica, ou seja na sua própria antítese, pois é através dos seus poderes e planos que reis e governantes terrenos tomam para si honras que só a Deus pertencem.

Mas subjacente à mesma ideia, esse castigo infligido aos deuses ou Humanos que pretendem alcançar aquilo que à Divindade Suprema pertence é também o mito Grego do Gigante Prometeu de quem Zeus temia o poder e que, segundo o mito, criou, a partir de um bloco de argila misturada com água, o primeiro Homem.

É Prometeu que vai roubar do Carro do Sol uma faísca e vem oferecer aos Homens o Fogo divino.

Desta e outras afrontas feitas ao Pai dos Deuses, Zeus enfurecido oferece aos Humanos Pandora, criada pelo deus Hefesto, e que, segundo o mito, abre uma Caixa e espalha sobre a Terra todos os males.

A Prometeu restou-lhe ser acorrentado no cume do Monte do Cáucaso, onde o seu fígado era devorado por uma águia, até ter sido libertado por Héracles desse flagelo.

Temos assim, em muitos mitos e religiões, um claro confronto entre a Luz e as Trevas que espelham a luta titânica que o Homem trava na sua caminhada para a Luz, enquanto Conhecimento e Saber, tantas vezes fustigado e castigado por desejar ser também detentor de algo que para elas deveria estar apenas consignado ao Divino.
Mas, ainda assim, o Homem, enquanto ser de Conhecimento e de Razão, prosseguirá a sua Viagem no sentido da LUZ, libertando-se de todas as forças que o desejem acorrentar!

terça-feira, 7 de março de 2017

OS DEUSES ESCONDEM-SE ATRÁS DAS ÁRVORES

http://www.incomunidade.com/v45/index.php



ANO 4EDIÇÃO 45 - ABRIL 2016
Filomena Barata

OS DEUSES ESCONDEM-SE ATRÁS DAS ÁRVORES


«Foi ela que deu o germe das plantas e das árvores, foi ela que reuniu nos laços da sociedade os primeiros homens, espíritos ferozes e bárbaros, foi ela que ensinou a cada ser a unir-se a uma companheira. Foi ela que nos proporcionou as inúmeras espécies de aves e a multiplicação dos rebanhos. O carneiro furioso luta, às chifradas, com o carneiro. Mas teme ferir a ovelha. O touro cujos longos mugidos faziam ecoar os vales e os bosques abandona a ferocidade, quando vê a novilha. O mesmo poder sustenta tudo quanto vive sob os amplos mares e povoa as águas de peixes sem conta. Vénus foi a primeira em despojar os homens do aspecto feroz que lhes era peculiar. Dela foi que nos vieram o atavio e o cuidado do próprio corpo».

Ovídio, Metamorfoses

Iniciara eu este trabalho, há muitos anos atrás, dando sequência a um levantamento efectuado sobre as espécies vegetais e animais das Ruínas de Miróbriga, Santiago do Cacém, bem como aos diversos estudos publicados, relativos a determinados  testemunhos florísticos e faunísticos desse sítio arqueológico, desejando fazer um elenco das referências existentes na literatura latina às mesmas e tentar ainda encontrar as suas associações com as divindades romanas. 


Estava também profundamente crente que um Sítio Arqueológico como a cidade romana de Miróbriga, para além do seu intrínseco valor científico e patrimonial, como testemunho do Passado, deveria assumir, no Presente, uma estreita relação com o meio e o ambiente onde se insere, pois a paisagem que ainda o envolve remonta a tempos milenares, com a sua zona de montado, mas onde, também na periferia, crescem tantas espécies de origens remotas, comuns ao Mediterrâneo.

Dispunha-me a fazer um trabalho infinito que nem uma vida inteira me deixará terminar.

Mas como Abril é o mês dos cravos e das rosas, o mês de Vénus, cujo culto está, em Miróbriga, atestado epigraficamente, através de duas inscrições dedicadas à divindade, e arqueologicamente, pois existe um templo de planta absidial que, muito possivelmente, lhe era dedicado - essa construção tem uma planta que se relaciona com o “templo de abside” dedicado a Venus Genetrix que foi construído em posição dominante do Forum Iulium para homenagear a origem mítica dos Iulii -,não quis deixar de partilhar um pequeno apontamento desse trabalho que nos permite percepcionar como, de facto, para os Romanos, não há Natureza, Divivindade e Humanidade separadas, pois são todos eles um TODO relacionável.


Templo de planta absidial de Miróbriga, Santiago do Cacém (lado esquerdo)

Abril deriva, ao que é comum aceitar-se, do latim «aprilis» que, por sua vez, se filia no verbo «aperire», que significa abrir, lembrando a estação do ano e o abrir das flores na Primavera.

Há quem defenda também que Abril derive de Aprus, o nome etrusco de Vénus, deusa do amor e da paixão.

Outra versão é que se relaciona com Afrodite, nome grego da deusa Vénus, que teria nascido da espuma do mar que, em grego antigo, se dizia "abril". E por isso a crença ainda actual de que os amores nascidos em Abril se eternizam, sob os auspícios da divindade.

Este mês era, por isso, consagrado pelos romanos à deusa Vénus chamando-se também por isso «mensis veneris», o mês de Vénus.

Também Ceres, a deusa da agricultura, e Baco, o deus do vinho, eram festejados neste mês pelos romanos.

Ceres continuava assim a honrar a fertilização da terra, que se abre nesta época do ano para receber a sementeira que, mais tarde, produzirá os frutos.

Baco, que corresponde ao Dionísio dos gregos, era também homenageado provando-se, pela primeira vez e com grande solenidade, o vinho da colheita anterior.

O mês era de Abril era representado por Cupido com uma coroa de rosas na cabeça.

Mas também a rosa era o atributo de Vénus, que com ele se fazia representar.

Assim se refere o poeta Virgílio, no século I

"Era o primero a colher a rosa na Primavera e no Outono as frutas. E quando o Inverno frio fazia estalar de frio as rochas e parava com o gelo o curso das águas, ele já estava recortando as folhas do jacinto, maldizendo o atrazo do Verão e  a deora dos céfiros. (Virg. Georg. IV)

Lembremos pois a rosa, uma das flores de maior simbolismo na cultura ocidental.

O seu nome tem origem latina, havendo, contudo, quem defenda que procede do grego «rhodon» numa referência a Rodes, ilha coberta de rosas.

Considerada "a rainha das flores" pela poetisa Safo no século VI a. C., ela teria sido criada, segundo a mitologia grega, por Clóris, deusa das flores (Flora entre os romanos), com o corpo inanimado de uma ninfa.

Era consagrada a Afrodite, deusa do amor, a Vénus da época romana.

Fotografia: Clara Pimenta do Vale

Dioniso, segundo a tradição mais difundida do mito, ofereceu-lhe seu perfume inebriante, e as Três Graças deram-lhe o encanto e o brilho que ela oferecia aos que a contemplavam.


Também Cupido, filho de Marte, deus da guerra, e de Vénus, usava uma coroa de rosas, bem como Príapo, deus dos jardins e da fecundidade.

Ao que se sabe, um milénio antes da nossa era, a rosa-de-damasco, uma das mais antigas que se conhece, era cultivada na ilha de Samos, no Mediterrâneo, exactamente em honra de Afrodite.

Consagrada a muitas outras divindades da mitologia, é símbolo de Afrodite e de Vénus, tendo sido adoptada pelo cristianismo que tornou a Rosa como o símbolo de Maria.

Mas regressemos ainda à Mitologia grega, que narra que Afrodite, quando nasceu nas espumas do mar, a espuma tomou forma de uma rosa branca, simbolizando a pureza e a inocência.

O Mito diz-nos ainda que, quando Afrodite viu Adónis ferido, pairando sobre a morte, a deusa foi socorrê-lo, tendo-se picado num espinho e seu sangue acabou por colorir as rosas que lhe eram consagradas.

Também na Antiguidade as rosas eram usadas sobre os túmulos, símbolo de luto, existindo um festival em honra de Flora e de Vénus chamado “Rosália”, e todos os anos, no mês de Maio, as sepulturas eram adornadas com essas flores.

Na Antiga Roma, cria-se que as rosas eram invenção da deusa Flora (deusa da primavera e das flores), que as criou quando uma das ninfas da deusa morreu. Perante a sua tristeza, cada deus contribuiu com um elemento para tornar a rosa a mais bela e desejada das flores; Apolo insuflou-lhe a vida; Baco deu o néctar; Pomona os frutos. Cupido deu-lhe os espinhos ao tentar espantar abelhas que se apaixonaram por ela.

O mito explica assim o aparecimento da rosa: as abelhas eram atraídas pela flor e quando Cupido atirou suas flechas para as afugentar, elas foram transformadas em espinhos.

A 23 de Abril comemoravam-se ainda as vinalia, festa dedicada ao vinho sob a protecção de Vénus que concedeu aos humanos o vinho corrente vinum spurcum. A Júpiter, como deus que regulava o clima, eram-lhe oferecidas libações com vinho benzido pelo  sumo sacerdote. Por sua vez, no templo de Venus Ericina, jovens e prostitutas reuniam-se procurando relacionamentos e ofereciam à deusa mirto, menta e juncos entre ramos de rosas, pedindo beleza.

A Rosa é, igualmente, consagrada à deusa Isís que é apresentada com uma coroa de rosas. Em muitas religiões mistéricas ou iniciáticas, a rosa fechada simboliza o segredo. Mas valor das rosas é também muito presente na Alquimia: uma rosa branca com um lírio era o símbolo da “Pequena Obra”; e as rosas vermelhas estavam associadas à “Pedra Filosofal”, o objectivo máximo de um alquimista, a “Grande Obra”.

Durante os Festivais anuais dedicados a Adónis que decorriam em cidades gregas, em cerimónias fúnebres, as mulheres plantavam sementes de flores e regavam-nas com água morna, para que crescessem mais depressa, fazendo com que as roseiras florescessem rapidamente. Mas também morriam num ápice: eram os denominados Jardins de Adónis.

Adónis, ao que  diz a Mitologia, havia nascido da casca da árvore da Mirra em que se tinha metamorfoseado Smirna ou Mirra para fugir ao castigo do seu irado pai, Téias, com quem manteve relações incestuosas.

Maravilhada com a extraordinária beleza de Adónis, Afrodite tomou-o sob sua protecção e entregou-o a Perséfone, filha de Ceres e de Zeus, que havia  sido raptada por Hades para o submundo,  para que ela o criasse.

À medida que Adónis cresceu, as deusas passaram a disputar a sua companhia, e Zeus, para resolver a situação, estipulou que ele passaria um terço do ano com cada uma delas. Contudo, Adónis preferia Afrodite e permanecia sempre com ela.

Mas a sua natureza altiva, não escutando os conselhos de Afrodite, foi a perdição de Adónis que,  um dia que foi à caça, acabou por sucumbir ao ataque de um javali ferido que lhe cravou os dentes, deixando-o moribundo.

Tal como Ceres e Perséfone, a Proserpina romana, o mito de Adónis está relacionado com os ritos simbólicos associados à Natureza, representando-se assim a morte da vegetação nas profundezas da terra. Adónis personifica a semente que morre e ressuscita, num outro ciclo, com a germinação a vida. 

Derivando da palavra latina flos (flores),Flora era, por sua vez, uma ninfa romana das flores, intimamente ligada à Primavera.  
Porque um novo ciclo se anuncia com a entrada dessa estação, Flora aparece-nos referida como deusa da fertilidade.

Durante os festejos que lhe eram dedicados em Roma, atiravam-se sementes sobre a multidão para atrair a fertilidade e a abundância, situação em que podemos encontrar algum paralelismo no hábito de, nos nossos dias, deitar arroz sobre os recém-casados. 
Eram também sacrificadas ovelhas e ofertado mel.

O mel era exactamente considerado um dos presentes que Flora tinha dado aos seres humanos, simbolizando a abelha a força feminina da natureza.

Flora foi inúmeras vezes associada a Deméter/Ceres, Ártemis e Perséfone/Prosérpina e o poeta Ovídio chega mesmo a relacioná-la com a mitologia grega, identificando-a com a ninfa grega Cloris, embora a origem da divindade seja claramente itálica.

Nessa versão do Mito de Ovídio, um certo dia de Primavera, Zéfiro, o vento oeste, avistou a ninfa Cloris, apaixonou-se por ela e transformou-a em Flora. Como prova de seu amor, Zéfiro nomeou a sua amada como rainha das flores, das árvores frutíferas e concedeu-lhe o poder de germinar as sementes das flores de cultivo e ornamentais, entre elas, o cravo.


Mas também o morango era a fruta da deusa Vénus, e símbolo de fertilidade, tentação e paixão, símbolo dos amores perdidos da mesma deusa por Adónis.

Na Mitologia romana os morangos eram chamados de "Lágrimas de Vénus" e do que reza a lenda, quando o mais belo dos homens morreu (Adónis), as lágrimas de Vénus transformaram-se em pequenos corações vermelhos, embora a mesma lenda nos apareça associada a outras plantas, flores, a exemplo da rosa, e animais, designadamente o javali que investiu contra Adónis e a anémona, ou flor-do-vento, pois o vento é a causa tanto de seu nascimento como de sua morte.

Muito possivelmente a utilização do morango para poções mágicas de amor relaciona-se, com este mito.

Já eram conhecidas as suas caracterísicas mediciais em época romana, pois o fruto tem grandes propriedades em toda a planta: fruto, raiz e folhas.


E retomo as palavras do autor latino do século I que heroiciza,  nas suas Geórgicas, o prestígio da vida agrícola, como um dos pilares da época de Augusto,  :

«(...) Quando renasce a Primavera, e frios regatos correm das montanhas cobertas de neve, e o Zéfiro desagrega as leivas, é chegada a ocasião dos bois começarem a gemer sob o peso do arado tanchando a fundo, e de rebrilhar ao sol a relha desgastada pelo roçar nos sulcos. (...)
Mãos à obra, portanto! Comecem os teus robustos bois, desde o primeiro dia do mês, a revolver a terra feraz, para que o poeirento Verão recoza com rais ardentos de sol as glebas que se lhe oferecem.

(...) o pai dos deuses, o próprio Jove, determinou que fosse árduo o cultivo das terras, pela primeira vez as mandou fabricar obedecendo a uma arte, e aguilhoou com preocupações o coração dos mortais, não consentindo que os seus domínios entorpecessem numa pesada modorra. Antes do reinado de Júpiter não havia agricultores em luta com os campos; não era permitido dividir a terra, e assinalar extremas; os homens buscavam o proveito para o bem comum, e o próprio solo produzia mais liberalmente, sem nada se lhe solicitar. Foi Júpiter que deu às negras serpentes o veneno maléfico, quem mandou que os lobos fossem depredadores, quem ordenou que o mar se agitasse, quem, sacudindo as folhas, fez cair delas o mel; quem retirou aos homens o fogo, e estancou os vinhos que corriam. Tudo para que o homem, à força de experiência e constante exercício, forjasse pouco a pouco as várias artes, alcançasse, abrindo sulcos, as messes de trigo, e fizesse brotar das veias da pedra o fogo que se lhe havia ocultado.

(...) Foi Ceres quem primeiro ensinou os mortais a revirar a terra com o ferro, quando já lhes faltava as landes, e Dodona recusava o alimento fácil».

«Tu, Minerva, que nos deste a oliveira; tu moço inventor do curvo arado; tu, Silvano, que usas em guisa de cajado um tenro cipreste arrancado com as raízes! E vós todos, deuses e deusas a quem cabe o cuidado de proteger os campos, que alimentais as plantas que o homem não semeou, e derramais do céu, sobre as que ele cultiva, a chuva benfazeja!» Também o geógrafo Estrabão se refere à riqueza agrícola e mineira da Turdetania do seguinte modo: «trigo, muito vinho e azeite; este de grande quantidade, e de qualidade insuperável» e adianta ainda que grande parte da costa atlântica e mediterrânica estava coberta de arvoredo: oliveira, vinha, figueira e outras árvores semelhantes e que a região entre o tejo e o Cantábrico "era naturalmente rica e frutos e gado" (3, 3, 5).

Virgílio, Livro I, ed. Sá da Costa, 1948: «As Geórgicas».


Fotografia: Clara Pimenta do Vale

Associada a Atena, (Minerva) e a Júpiter, encontramos neste autor, ao longo da sua obra, várias referências à oliveira, Associada a Atena, (Minerva) e a Júpiter, encontramos neste autor, ao longo da sua obra, várias referências à oliveira, bem como em Catão, Plínio e Estrabão.


Era considerada a árvore da civilização, da fecundidade, da paz e da vitória sobre as forças obscuras, esterilizantes e injustas. 
Do que nos diz a Mitologia, a deusa Atena, que zela pelo Estado e pela prosperidade do mesmo, fez brotar a oliveira por detrás do Erectéion, como o mais belo presente que podia oferecer aos Atenienses.

Mas também a deusa velava pela agricultura.
Segundo Plínio, «Há também azeitonas muito doces que se secam por si, mais doces que uvas passas; são bastante raras e produzem-se na África e próximo de Emérita, na Lusitânia» Plínio, NH, XV, 17.

Este autor latino refere ainda que a Bética obtinha as suas mais ricas colheitas das oliveiras e que o solo cascalhoso era muito apto para plantar olivais.

É sabido que a oliveira, a par da videira, foi uma das primeiras árvores a ser cultivada, há mais de 5.000 anos, no Mediterrâneo Oriental e Ásia Menor, sendo os Fenícios, Sírios e Arménios os primeiros a consumir azeite.

Era utilizado na alimentação, higiene e beleza e ainda com fins medicinais.

Durante o Período Romano, foi muito utilizado para tratamentos capilares, sendo também aproveitado para a iluminação, designadamente nas lucernas, ou candeias, como lubrificante de ferramentas e alfaias agrícolas, impermeabilizante e ainda em rituais religiosos, tendo mantido, contudo, o seu tradicional uso na alimentação e para efeitos medicinais.

Mas também todas as outras plantas, árvores e flores beneficiavam dessa íntima relação com as divindades.

Os cereais, criados por Ceres, e, mais especificamente, o trigo, aparecem associados pois a Ceres e Deméter, filha de Crono e de Reia, que parece ter dado os primeiros grãos de trigo a Céleo de Elêusis.

É a deusa do trigo, facilitando-lhe a germinação, e as colheitas, de que assegura o amadurecimento.

Também na obra de Virgílio há inúmeras referências ao trigo  que aconselha «Terras anegradas, onde a relha escorrega quase sem esforço, mas que se esfarelam - para isso serve o charruar - são as melhores para o trigo»,

As Geórgicas, Ed. Sá da Costa, 1948, Lisboa. Plínio, NH, XVIII,

Por sua vez, Plínio informa-nos, na sua História Natural, que na Hispânia o trigo se guardava em silos e que «assim, se não penetra qualquer ar no trigo, é seguro que não haverá qualquer dano» Plínio, XVIII, 306-307.

Por sua vez, Plínio informa-nos, na sua História Natural, que na Hispânia o trigo se guardava em silos e que «assim, se não penetra qualquer ar no trigo, é seguro que não haverá qualquer dano» Plínio, XVIII, 306-307.

Segundo informação de Estrabão, «Da Turdetânia exporta-se trigo, muito vinho e azeite; este, para mais, não só em quantidade, como de qualidade insuperável» Estrb. III,2, 65.

Assim das mãos de Deméter/Ceres surgiu o trigo, considerado também o símbolo da Civilização, essa capacidade de os Humanos moldarem a Natureza.

Sendo a deusa da agricultura, fez muitas viagens em companhia de Dionísio, deus da vinha e do vinho, para ensinar os homens a cultivarem a terra e a cultivá-la.



Teve uma filha com seu irmão Zeus chamada Perséfone, de que já falámos nesta revista, que vivia meio ano nas profundezas da Terra e outra metade vinha ajudar a sua mãe. Com o seu regresso inaugurava-se a Primavera, marcado pelo Equinócio da Primavera.

Cantemos, pois, a Primavera e os campos que encherão de papoilas, honrando também Deméter, deusa da fertilidade e das estações do ano e de que a flor é atributo.

Poderá consultar-se:

Filomena Barata,

Espécies vegetais de Miróbriga e as suas referências mitológicas e Bibliográficas


Filomena Barata
Mestrado em Arqueologia
Colaboradora do CIDHEUS, Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades. Universidade de Évora